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Transmissão da Covid-19 acelera em Santa Catarina três meses depois



Santa Catarina convive com restrições impostas pelo novo coronavírus há três meses, completados neste 18 de junho. Mas a quarentena pesada foi embora há mais de 60 dias, com comércio, depois shoppings, academias e restaurantes funcionando.


Não se observou colapso no sistema de saúde, nem tampouco conteve-se o crescimento da Covid-19 no estado. Há ares de normalidade nos ônibus rodando e nas empresas reabrindo, mas o discurso oficial à população é para que não relaxe.



A aparente contradição se deve a dois fatores: a maioria da população segue vulnerável ao vírus e a transmissão está acelerando.


Menos de 0,5% dos 6,7 milhões de catarinenses tiveram contato com o coronavírus até o início de junho, segundo o maior estudo brasileiro sobre a pandemia, da Universidade Federal de Pelotas.


Mesmo que existam três casos não notificados (subnotificação estimada por pesquisadores da UFSC) para cada um dos 15.051 confirmados pelo governo, o percentual não chega a 0,7%. Em Blumenau, as mesmas contas não superam 1%.


Cidades do Norte/Nordeste alcançam patamares superiores a 20% e pagam um pedágio macabro de superlotação hospitalar e mortes. É por isso que cientistas não cogitam a chamada "imunidade de rebanho" como saída. Para que ela interrompa a circulação do vírus, 60% precisam contraí-lo (4 milhões de catarinenses). Com uma mortalidade de 1%, significaria dizer que 40 mil ficariam pelo caminho. Impensável.


A alternativa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é conter a transmissão da doença com isolamento social e cumprir uma série de metas na retomada à "normalidade". A primeira, e fundamental, é o controle da transmissão.


Curva ascendente


O número de pacientes em tratamento cresceu 11% em Santa Catarina no último mês. Eram 1.951 em 17 de maio, agora são 2.166. Mas esse dado é irregular nas diferentes regiões.

Em Blumenau, conforme os registros da prefeitura, houve alta de 91,5%, para 540 casos ativos. Há mais gente doente precisando da rede de saúde, e não menos.


Em março, Santa Catarina havia reduzido o índice RT, que estima para quantas pessoas, em média, cada indivíduo infectado transmite o novo coronavírus.


De acordo com o matemático Luiz Rafael dos Santos, professor da UFSC em Blumenau e integrante de um grupo de pesquisadores que analisa a pandemia no estado, o RT baixara até em torno de 0,7. Se continuasse assim, a Covid-19 poderia ser até suprimida. Bastaria controlar novos surtos, como já fazem Nova Zelândia e Coreia do Sul.



Em 10 de junho, ele já estava entre 1,1 e 1,6. O modelo usado no cálculo é o do Imperial College, de Londres.


— Não entendo para quais dados o poder público está olhando e qual o modelo de análise adotado nessas decisões de reabertura — avalia Santos.


Autoridades municipais e estaduais não ignoram os dados, mas apontam para boas notícias nas unidades de saúde e leitos de terapia intensiva. No estado, 63% dos 1.316 leitos de UTI disponíveis estão ocupados (por pacientes com enfermidades diversas, inclusive Covid-19). No Vale do Itajaí, 58% dos 201 leitos. Também há capacidade disponível em enfermarias, emergências e ambulatórios.


— A situação não é tranquila, ela é controlada. Nós não baixamos a guarda —, garante o prefeito Mário Hildebrandt.


Transporte


O retorno do transporte coletivo e, nas próximas semanas, dos ônibus intermunicipais, apesar de todas as restrições e cuidados, devem trazer mais pressão, acredita o geógrafo Marcus Polette, da Univali, outro pesquisador do grupo.


Polette analisa a distribuição geográfica da pandemia no estado. Na análise dele, o vírus chegou pelos aeroportos de Florianópolis, Navegantes, Joinville e Criciúma. Depois espalhou-se, acompanhando os traçados das BRs 101 e 470.


A interrupção do transporte coletivo entre as cidades e no interior dos centros urbanos, em março, foi essencial para frear a mobilidade do Sars-Cov-2. Neste momento, Santa Catarina abre mão dessa proteção.


— A mobilidade é um dos fatores mais importantes dentro da cidade, mas as empresas de transporte precisam ter responsabilidade para lidar com esse momento, que é delicado e transitório —, preocupa-se Polette.


Desafio


Santa Catarina e Blumenau superaram a desconfiança nacional com a reabertura dos shoppings centers, dois meses atrás. Nas próximas semanas, enfrentarão uma nova prova de fogo.

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