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Noites na porta de hospital em Manaus; agonia por informações



Familiares que fazem vigília na porta do maior pronto-socorro de Manaus. Superlotado com pacientes da covid-19, o Hospital 28 de Agosto, no bairro de Adrianópolis, virou ponto fixo de parentes em busca de informações sobre os internados.



Na porta da unidade dezenas de familiares que, temendo um cenário trágico em razão da falta de oxigênio, preferem ficar por perto para uma eventual ajuda. A fim de tentar aliviar a agonia, uma rede de solidariedade com voluntários se formou para apoiar as famílias com alimentação e até roda de violão.


"Lógico que a gente aqui está sempre com medo. A gente viu tudo que está ocorrendo. A agonia maior é não ter informação.


Fernanda Pinheiro, está com a mãe internada desde sábado (16)


"Não tive nenhuma notícia do hospital. Se a gente não tiver um conhecido, alguém que ajude dentro do hospital, não consegue saber", afirma ela, que estava "acampada" no local com outros quatro familiares.



A reclamação de falta de notícias é unânime. "Eles não deixam entrar com celular, a gente não consegue nenhum contato. Só pessoas conhecidas que estão dentro que passam algo", diz Dulciana Cabral, 43, que também está com a mãe internada no local.



A Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) informa que o serviço é oferecido na tenda de apoio psicossocial montada na Fundação Alan Kardec (FAK), ao lado do hospital. No local, os familiares podem obter informações sobre os pacientes internados.


Os pacientes temem que a qualquer momento sejam chamados com más notícias.


Rede de solidariedade


Em razão da comoção com o colapso na saúde, muitos grupos de moradores se mobilizaram e foram até a porta do hospital para uma série de ações —distribuição de comida, bebida e máscara, fazer orações e até tocar violão e cantar para animar os parentes.


Para aguentarem os turnos, os familiares se revezam para que sempre tenha alguém, 24 horas por dia, na porta do hospital. Em frente à unidade há apenas uma pequena praça. Não há nenhuma estrutura montada para receber as pessoas, exceto três banheiros químicos.



O vigia Raimundo Nonato, 37, está com o avô de 76 anos internado desde o sábado e reclama da falta de informações do hospital.


"A gente não sabe nem se está vivo ou morto, não falam nada.


Raimundo Nonato, que espera informações sobre o avô


Para que sempre tenha alguém na porta do hospital, ele se reveza com o irmão —que passou a noite anterior. Desta vez, foi Nonato quem virou a noite. "A gente não dorme, né? A gente passa a noite acordado, conversando, aguardando", diz.



Ao lado de Raimundo, dividindo o mesmo banco de praça há horas, estava Simone Costa, 47.


"Estou com meu marido internado, passei a noite ontem aqui e vou passar hoje também. Só fui em casa mesmo tomar um banho e descansar, mas estou aqui", diz. "Nem piscar pisquei, a gente fica conversando para passar o tempo", relata.


Cadeiras de praia para a vigília


Para passar a noite, parentes levaram cadeiras de praia para a porta do hospital. Em uma delas, Suelen Andrade, 36, esperava por informações sobre o avô de 92 anos, internado no sábado.



"Tinha um amigo aí no plantão [que encerrou às 19h] e nos deu informação que ele está estável e medicado. Agora não tenho mais informação, mas ficamos mais tranquilos."


O movimento no local está mais tranquilo nas últimas duas noites —por conta da lotação máxima, desde sexta (15) a unidade fechou a triagem e recebe apenas pacientes encaminhados.



Varias ambulâncias deixam o local com pacientes, para transferências para outros estados.



Moradores de rua também aparecem para aproveitar a solidariedade. "Aqui a gente come bem, coisa rara", diz Gilvanio.





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