Médico que morreu em Balneário Camboriú trabalhava na linha de frente no combate ao coronavírus



A morte do médico pediatra Gastão Dias Junior, 51 anos, desestabilizou as equipes do Hospital Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú. Ele trabalhava na linha de frente do combate ao novo coronavírus, e é possivelmente a primeira baixa entre os médicos de Santa Catarina na guerra contra a covid-19 – até a manhã desta quinta-feira (23), a morte não constava na lista oficial de óbitos do Estado, que é atualizada diariamente às 18h.


Professor universitário, do curso de Medicina da Univali, Gastão inspirou muitos alunos a seguir carreira na pediatria. A irmã, Georgia, diz que ele nunca quis trabalhar em consultório: a saúde pública era sua paixão. Gastão atuava no Ruth Cardoso desde 2018.



- Era um colega querido, de conversar com todos, acolher a todos, um excelente professor. Os alunos que estão trabalhando conosco como voluntários estão muito abalados. Se desestimularam com o trabalho pelo que aconteceu. É um momento muito difícil para manter o equilíbrio, manter o foco – diz a secretária de Saúde de Balneário Camboriú, Andressa Haddad.



Gastão foi o primeiro médico da família – o orgulho dos pais. Nascido em Canoinhas, no Planalto Norte, estudou na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba (PR). Junto com a irmã, que é enfermeira, trabalhou em Manaus (AM) antes de voltar a Santa Catarina. Escolheu morar em Itapema, onde também atuava nos postos de saúde.


Primeiros sintomas


O médico começou a passar mal no dia 23 de março. Teve sintomas de gripe, com algumas dores no corpo. Três dias depois, já com falta de ar, precisou ser internado na UTI do Hospital da Unimed, onde ficou intubado por 23 dias, lutando para sobreviver.


A irmã dele, Georgia, também teve covid-19 e já estava hospitalizada quando Gastão foi internado. Segundo ela, Gastão era hipertenso. Ela se recuperou, e acompanhou de longe a situação do irmão. A família não podia visita-lo na UTI, e recebia as informações por telefone.


- Mantivemos uma corrente bem grande de oração. Mas ele teve mais de 75% do pulmão comprometido. A gente cria a expectativa de que a pessoa vai sair disso, de que não vai ser com ela – lamenta Georgia.


Alunos e amigos de Gastão gravaram vídeos emocionados, em que homenagearam o professor:



- Foi vendo ele, profissional apaixonado, dedicado, inteligente, sempre muito preocupado com o uso de EPIs, com os cuidados ao lidar com o paciente, que eu decidi por essa profissão tão bonita. Vou ser eternamente grata – disse Dora Diedrich.


- Um dos serem humanos mais discretos, gentis, leves, cuidadosos e competentes que a gente teve o prazer de conhecer - afirmou Amanda Slomp.


- É uma perda irreparável para nossa região, nossas crianças, nossos pacientes – disse a médica pediatra Janaina Sortica.


Profissionais apreensivos


Além de tristeza, a morte do médico trouxe apreensão aos profissionais de saúde que estão na linha de frente de combate ao novo coronavírus.


- Nós estávamos preocupados. Agora estamos com muito medo de virar número na estatística – disse a secretária de Saúde de Balneário Camboriú.


Ela ressaltou que é importante que as pessoas se cuidem, usem máscaras, evitem aglomerações e não se exponham. Lembrou, ainda, que há muitas pessoas que carregam o vírus sem ter sintoma algum, que podem ser vetores de contaminação.



- Estamos lutando contra um inimigo que não conhecemos e estamos vendados – diz Andressa.


O Hospital Ruth Cardoso vai começar a fazer testes em larga escala para tentar identificar pessoas sem sintomas que são portadoras do novo coronavírus. A secretária mostrou preocupação de que as pessoas relaxem as medidas de proteção, e isso cause uma aceleração no número de casos.


O médico Gastão Dias Junior deixou o companheiro, com quem era casado há 13 anos, a irmã, a mãe e quatro sobrinhos.


Por Dagmara Spautz


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